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A crise da masculinidade

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  • 25 de Mai de 2015
  • Sheila Almeida
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Nos últimos anos, tem se discutido acerca da atual crise da masculinidade. O novo homem” estaria em crise porque não encontraria novos modelos para descrever sua nova condição masculina. Os reflexos dessa crise se devem à maior participação das mulheres no campo do trabalho, do avanço da tecnologia no campo da sexualidade, na pluralidade de papéis e identidades sexuais, na redefinição do papel de pai, na maior preocupação com o corpo e com a estética e a tentativa de manter e sustentar um modelo hegemônico único no papel masculino.

Dito de outro modo, o conceito de masculinidade hegemônica está calcado nos modelos tradicionais e dos predicativos da personalidade do homem, qual seja, machista, viril e heterossexual, do mesmo modo em que este deve apresentar distanciamento emocional, agressividade e comportamento de risco no seu dia a dia, ou seja, um homem bem mais próximo dos modelos do cavaleiro medieval, do guerreiro oitocentista e dos grandes soldados, ao passo que os novos modelos de masculinidade têm colocado em evidência uma preocupação quanto à redefinição do papel de pai, marido, amante, trabalhador e cidadão.

 A identidade de gênero e sexual são processos complexos, impostos ora por nossos pais e amigos, e cobrados direta ou indiretamente pela sociedade em que vivemos, conjurando a heterossexualidade como modelo normativo único e constitutivo das subjetividades da maioria dos homens. Apesar de compreendermos a identidade sexual como sendo hetero, homo ou bissexual, nos dias atuais, entendemos também que há uma certa pluralidade de “tipos” sexuais, tais como o transexual, o travesti, e até mesmo o drag-queen e a drag-king figurariam como identidades sexuais possíveis.

Uma sociedade constrói um conjunto de traços desenvolvidos na esfera social e cultural que definem, em consequência, quais os gestos, os comportamentos, as atitudes, os modos de se vestir, falar e agir de forma semelhante para homens e mulheres. As identidades de gênero tendem a estar em consonância com o sexo biológico do sujeito, porém, não são estruturas fixas, encerradas em si mesmas; pelo contrário, podem e estão continuamente se renovando, em ebulição, e a cada momento podem ser novamente moldadas de outras formas.

Elas também são impostas pelo processo de socialização, que impede construções singulares, moldando um “comportamento” comum a todos os indivíduos. Apesar de não ser uma condição para a formação das identidades sexuais, elas estão intimamente ligadas à escolha afetiva e sexual do sujeito. Nós podemos encontrar sujeitos masculinos ou femininos que não necessariamente pertencem ao seu sexo biológico e que podem fazer uma escolha afetiva e sexual do sexo oposto ao seu.

Quem não se enquadra nesses padrões, ou muda seus comportamentos, seus papéis sociais, seus desejos afetivos e sexuais, ou paga um alto preço em seu sofrimento psíquico. Os papéis sociais são padrões ou regras arbitrárias que uma sociedade estabelece para seus membros e que definem seus comportamentos, suas roupas, seus modos de se relacionar ou de se portar, através do aprendizado de papéis, cada um/a deveria conhecer o que é ser considerado adequado (e inadequado) para um homem ou para uma mulher numa determinada sociedade, e responder a essas expectativas.

Quais eram os modelos tradicionais de masculinidade? Estudos diziam que o que era ser homem mostrava uma polaridade negativa (não poder chorar, não demonstrar seus sentimentos, não ser mulher ou homossexual, não amar as mulheres como as mulheres amam os homens, não ser um fraco, covarde, perdedor e passivo nas relações sexuais, etc.) e afirmativa (ser forte, corajoso, pai, heterossexual, macho, viril, provedor da família, dominador, destemido, determinado, autoconfiante, independente, agressivo, líder, etc.) na constituição dos traços e papéis sociais.

As possibilidades mostravam-se também numa relação de “TER” (força, dinheiro, músculos, um corpo definido, um pênis, um cromossomo Y, um lar, um filho homem, controle das emoções, emprego fixo e tantas mulheres quanto fosse possível durante sua vida sexual ativa) e “poder executar tarefas”, tais como “fazer um filho”, “manter relações sexuais com várias mulheres”, sair de situações difíceis”, “servir à pátria”, “sustentar a família”, entre outros, ou seja, querendo ou não, os ideais tradicionais de masculinidade vão se reportar sempre ao dado anátomofisiológico, bem como aos aspectos psicológicos que hierarquicamente estabeleceram e mantiveram o domínio dos homens sobre as mulheres.

Após o advento do movimento feminista, o modelo tradicional de masculinidade não conseguia se sustentar mais frente às mudanças ocorridas no campo do trabalho, das relações afetivas, sociais e sexuais. A  celeuma provocada pelo movimento feminista provocou uma outra ainda maior, em defesa de melhor definição da identidade do homem contemporâneo, aparecendo, assim, a atual crise da masculinidade. Uma das principais críticas que se pode fazer ao novo modelo de masculinidade está na redefinição do papel de pai do homem contemporâneo. O modelo de masculinidade para o novo homem estaria baseado na capacidade e possibilidade desse homem demonstrar seus sentimentos, de poder amar e se emocionar publicamente sem constrangimento, além de sensibilidade ao invés de agressividade, junto à capacidade de executar tarefas domésticas, maior participação na educação dos filhos, exercício de profissões antes consideradas femininas, admitindo inclusive ganhar menos do que sua companheira.

Quantos homens buscam respeito, admiração e valor através de sua força e poder? Muitos, sobretudo aqueles que não aprenderam a utilizar seus sentimentos de forma criativa. Podem se sentir decepcionados algumas vezes e perceber o quanto são frágeis. Não há nenhum problema em admitir o que sentem. Pelo contrário, esta atitude revela coragem e ousadia. Ao descobrirem suas fragilidades, tornam-se homens melhores, maridos melhores, pais melhores. A sociedade em que vivem exige alto-astral e cobra que sejam potentes em todos os sentidos. Curiosamente, alguns homens que apresentam  impotência sexual, possuem  sentimentos de impotência diante da vida. Homens também choram, geralmente, escondidos, ao contrário das mulheres, que desde pequenas, tiveram permissão para expressar o que sentem. Precisam aprender a dividir o peso que durante muito tempo a educação machista impôs. Sonham com o dia em que homens possam chorar juntos e compartilhar do que sentem. Alguns já conseguem esta façanha, mas apenas na mesa do bar.  

TAGS: masculinidade, feminilidade, papéis sociais, crises, novo homem, identidade sexual, heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, metrossexual

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